Duas Ferramentas, Duas Finalidades
Na cirurgia plástica facial moderna, dispomos de duas grandes opções para restaurar volume no rosto: o enxerto de gordura autóloga e os preenchedores à base de ácido hialurônico. Em minha clínica em Londrina, utilizo ambos com frequência e posso afirmar que cada um tem seu papel bem definido. A questão nunca deveria ser qual é melhor em absoluto, mas sim qual é melhor para cada situação específica.
Neste artigo, vou detalhar as diferenças, vantagens e indicações de cada técnica para que você chegue à sua consulta com uma compreensão clara do que cada opção oferece.
Preenchimento com Ácido Hialurônico: O Que É
Os preenchedores de ácido hialurônico são géis sintéticos injetáveis produzidos em laboratório. O ácido hialurônico é uma molécula naturalmente presente na pele humana, responsável pela hidratação e pelo turgor dos tecidos. Quando injetado, ele adiciona volume imediato e atrai moléculas de água, potencializando o efeito volumétrico.
Existem dezenas de marcas e formulações disponíveis no mercado brasileiro, cada uma com características reológicas diferentes — viscosidade, coesividade, elasticidade — que as tornam mais adequadas para determinadas regiões e finalidades.
Vantagens dos Preenchedores
- Procedimento ambulatorial: realizado no consultório em 20-40 minutos
- Sem necessidade de centro cirúrgico ou anestesia geral
- Resultado imediato: o paciente sai do consultório já com o volume desejado
- Reversível: a hialuronidase dissolve o produto se necessário
- Recuperação mínima: retorno às atividades no mesmo dia ou no dia seguinte
- Permite ajustes graduais: pode-se adicionar volume progressivamente ao longo de múltiplas sessões
- Custo inicial menor
Limitações dos Preenchedores
- Resultado temporário: duração de 6 a 18 meses dependendo do produto e da região
- Custo acumulado: manutenções repetidas ao longo dos anos podem superar o custo de uma cirurgia
- Volume limitado por sessão: não é ideal para restaurar grandes volumes
- Risco de migração: o produto pode se deslocar da posição original ao longo do tempo
- Acúmulo residual: aplicações repetidas podem levar a acúmulo de produto e distorção tecidual
- Não tem efeito regenerativo: preenche mas não melhora a qualidade do tecido
Enxerto de Gordura: O Que É
O enxerto de gordura — ou lipoenxertia facial — é um procedimento cirúrgico no qual gordura é aspirada do próprio corpo do paciente, processada e reinjetada no rosto. É um procedimento mais complexo que o preenchimento, mas oferece vantagens que nenhum material sintético consegue replicar.
Vantagens do Enxerto de Gordura
- Resultado duradouro a permanente: a gordura que integra permanece indefinidamente
- Totalmente biocompatível: sem risco de reação alérgica ou rejeição
- Efeito regenerativo: as células-tronco da gordura melhoram a qualidade da pele
- Resultado extremamente natural: textura, cor e comportamento idênticos ao tecido nativo
- Ideal para grandes volumes: permite restaurar volumes significativos em uma única sessão
- Investimento único: sem necessidade de manutenção periódica
Limitações do Enxerto de Gordura
- Requer centro cirúrgico: é uma cirurgia, com todos os cuidados que isso implica
- Recuperação mais longa: 1-2 semanas de afastamento social
- Edema significativo: o rosto fica inchado nas primeiras semanas
- Resultado não imediato: o resultado final estabiliza em 3-6 meses
- Reabsorção parcial: nem toda gordura enxertada sobrevive
- Custo inicial maior
Quando Indicar Preenchimento
Na minha prática, indico preenchimento com ácido hialurônico nas seguintes situações:
- Correções pontuais e sutis: suavizar uma linha específica, um sulco leve, uma assimetria discreta
- Pacientes que não desejam cirurgia: para quem prefere procedimentos menos invasivos
- Lábios: para aumento volumétrico labial em pacientes jovens, o preenchimento costuma ser a primeira opção
- “Test drive” antes do enxerto: para pacientes indecisos, o preenchimento pode mostrar como ficaria o rosto com mais volume antes de optarem pela gordura
- Retoques pós-cirúrgicos: ajustes finos após um lifting ou enxerto de gordura
- Pacientes muito magros: sem gordura corporal suficiente para colheita
Quando Indicar Enxerto de Gordura
Recomendo o enxerto de gordura quando:
- A perda de volume é generalizada: quando múltiplas áreas do rosto precisam de restauração volumétrica — têmporas, maçãs do rosto, mandíbula, região periorbital
- O paciente já realizou múltiplos preenchimentos: em vez de continuar com manutenções infinitas, o enxerto resolve de forma definitiva
- Combinação com lifting facial: quando o paciente vai realizar um lifting, adicionar o enxerto de gordura no mesmo tempo cirúrgico é extremamente vantajoso
- Busca por resultado duradouro: pacientes que desejam um investimento único e permanente
- Melhora da qualidade da pele: o efeito regenerativo das células-tronco é um bônus valioso
- Volumes maiores: quando é necessário restaurar volumes que seriam excessivos para preenchimento
A Combinação Inteligente
Na prática do dia a dia, frequentemente combino as duas técnicas em uma estratégia integrada. Por exemplo:
- Realizo o enxerto de gordura como base volumétrica principal durante o lifting facial
- Após a estabilização do resultado (6 meses), avalio se há necessidade de retoques finos com preenchedor
- Uso o ácido hialurônico para pequenos ajustes de contorno que o enxerto não alcançou perfeitamente
Essa abordagem sequencial me permite obter o melhor de cada técnica: a durabilidade e naturalidade da gordura como fundação, e a precisão do preenchedor para o acabamento fino.
A Questão Financeira
Muitos pacientes tomam a decisão inicial baseando-se no custo de uma sessão de preenchimento versus o custo da cirurgia de enxerto. Essa comparação é enganosa quando analisamos o longo prazo.
Um paciente de 45 anos que começa a preencher o rosto regularmente vai precisar de manutenção a cada 8-12 meses por potencialmente 20-30 anos. O custo acumulado é substancial. O enxerto de gordura, embora mais caro inicialmente, é um investimento que se paga em poucos anos quando comparado ao preenchimento recorrente.
Naturalmente, essa análise financeira não deve ser o único critério. A indicação técnica precisa vir primeiro — mas quando ambas as opções são igualmente indicadas, o aspecto financeiro pode ajudar na decisão.
Riscos Comparados
Ambos os procedimentos são seguros quando realizados por profissionais qualificados, mas cada um tem seu perfil de riscos:
Preenchimento
- Hematoma e edema leve (comum, autolimitado)
- Nódulos palpáveis (raro, geralmente tratável)
- Oclusão vascular (raro, complicação séria que exige tratamento imediato)
- Infecção (muito raro)
Enxerto de Gordura
- Edema prolongado (esperado, resolve em semanas)
- Equimose na face e na área doadora
- Assimetria (pode necessitar retoque)
- Cistos oleosos (raros com técnica adequada)
- Reabsorção excessiva (pode necessitar segunda sessão)
Minha Filosofia
Como cirurgião plástico facial, minha abordagem é sempre individualizada. Não existe uma resposta universal para a questão “gordura ou preenchimento”. A melhor escolha depende da quantidade de volume a ser restaurado, das expectativas do paciente, do contexto cirúrgico e de diversos outros fatores que avaliamos juntos na consulta.
O que posso afirmar com segurança é que ambas as técnicas, quando bem indicadas e bem executadas, produzem resultados excelentes. O segredo está na indicação correta.
Se você está considerando restaurar o volume do seu rosto e gostaria de saber qual técnica é mais adequada para o seu caso, agende uma consulta. Terei prazer em avaliar pessoalmente e orientar a melhor estratégia para alcançar um resultado natural e harmonioso.

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