A Pergunta Que Todo Paciente Faz
“Doutor, quanto dessa gordura vai ficar?” Esta é, sem dúvida, a pergunta mais frequente que recebo quando discuto o enxerto de gordura facial com meus pacientes em Londrina. E é uma pergunta absolutamente pertinente, porque a resposta define expectativas e influencia o planejamento cirúrgico.
A verdade é que a taxa de sobrevivência da gordura enxertada é um dos temas mais estudados — e debatidos — da cirurgia plástica contemporânea. Décadas de pesquisa nos trouxeram um entendimento muito mais claro do que acontece quando transplantamos gordura de um local para outro, e esse conhecimento nos permite otimizar resultados de forma consistente.
O Que Acontece Com a Gordura Transplantada
Quando injetamos gordura em uma nova localização, três destinos são possíveis para cada célula adiposa:
Sobrevivência e Integração
As células de gordura que mantêm contato adequado com tecido receptor bem vascularizado conseguem sobreviver ao transplante. Nos primeiros dias, elas dependem de difusão passiva de oxigênio e nutrientes do tecido circundante — um processo chamado de embebição plasmática. Nas semanas seguintes, novos vasos sanguíneos crescem em direção às células enxertadas (neovascularização), estabelecendo uma nutrição definitiva. Essas células sobrevivem permanentemente.
Morte Celular e Reabsorção
Células que ficaram muito distantes de fontes de nutrição, que foram danificadas durante a colheita ou que não conseguiram estabelecer nova vascularização morrem e são gradualmente reabsorvidas pelo organismo através de processos inflamatórios controlados.
Substituição por Tecido Fibroso
Em algumas situações, células mortas não são completamente reabsorvidas e são substituídas por tecido cicatricial ou formam cistos oleosos. Isso é mais comum quando grandes volumes são injetados em um único ponto, criando bolsões de gordura sem nutrição adequada.
As Taxas de Sobrevivência: O Que Dizem os Estudos
A literatura científica mostra uma ampla variação nas taxas de retenção de gordura, o que reflete diferenças significativas nas técnicas utilizadas pelos diversos pesquisadores. No entanto, com técnicas modernas e refinadas, podemos estabelecer faixas bastante confiáveis:
- Região malar e submalar: 60-80% de retenção — esta é uma das áreas com melhor resultado, devido à boa vascularização e à presença de tecido muscular receptor
- Têmporas: 50-70% — boa receptividade, especialmente quando a gordura é injetada em plano intramuscular
- Sulcos nasolabiais: 50-70% — resultados consistentes quando a técnica é adequada
- Lábios: 40-60% — área de grande mobilidade, o que dificulta um pouco a integração
- Região periorbital: 50-70% — área delicada que exige técnica muito refinada
Essas taxas significam que, na prática, devemos planejar uma sobrecorreção inicial calculada. Se desejo um volume final de 10ml em determinada região, injeto entre 12 e 15ml, sabendo que parte será reabsorvida.
Os Três Fatores Que Mais Influenciam a Sobrevivência
Após anos realizando enxertos de gordura facial e acompanhando os resultados a longo prazo, identifico três fatores como os mais determinantes para a taxa de sobrevivência:
1. Técnica de Colheita
A delicadeza na aspiração da gordura é absolutamente crítica. Aspiração com pressão excessiva rompe as membranas celulares dos adipócitos, destruindo-os antes mesmo de serem transplantados. Utilizo cânulas de pequeno calibre e pressão negativa controlada, o que preserva a integridade celular.
A técnica de Coleman, desenvolvida pelo Dr. Sydney Coleman de Nova York — um dos pioneiros modernos do fat grafting — enfatiza a colheita atraumática como pilar fundamental para bons resultados, e os dados científicos confirmam essa abordagem.
2. Técnica de Injeção
A forma como a gordura é depositada no tecido receptor é tão importante quanto a forma como é colhida. O princípio fundamental é a microenxertia em múltiplos túneis: pequenos volumes de gordura distribuídos em múltiplas passagens de cânula, em diferentes planos teciduais.
Cada micropartícula de gordura precisa estar rodeada por tecido vascularizado para sobreviver. Quando injetamos grandes bolsões em um único ponto, as células centrais ficam distantes demais de qualquer fonte de nutrição e inevitavelmente morrem.
3. Qualidade do Leito Receptor
Áreas bem vascularizadas recebem melhor o enxerto. Tecidos previamente irradiados, cicatriciais ou muito fibróticos oferecem um leito menos favorável. Isso explica, por exemplo, por que a região malar — rica em músculo e vasos — tem taxas de retenção superiores às de áreas mais avasculares.
O Papel das Células-Tronco
Um dos avanços mais empolgantes na ciência do fat grafting é a compreensão do papel das células-tronco adiposas (ADSCs — Adipose-Derived Stem Cells). A gordura não é apenas um tecido de preenchimento — é um reservatório riquíssimo de células-tronco mesenquimais.
Essas células-tronco têm capacidade de se diferenciar em diversos tipos celulares e, mais importante, secretam fatores de crescimento que estimulam a formação de novos vasos sanguíneos, reduzem a inflamação e promovem a regeneração tecidual.
Estudos recentes demonstram que o enriquecimento do enxerto com células-tronco — técnica conhecida como CAL (Cell-Assisted Lipotransfer) — pode melhorar as taxas de retenção. Embora essa técnica ainda esteja sendo refinada, ela representa o futuro do fat grafting.
Processamento da Gordura: Os Diferentes Métodos
Após a colheita, a gordura precisa ser processada para remoção de componentes indesejados. Os principais métodos são:
Centrifugação
Popularizada por Coleman, consiste em centrifugar o aspirado para separar a gordura viável do óleo, sangue e líquido infiltrado. É um método eficiente e amplamente utilizado.
Decantação e Lavagem
A gordura é deixada em repouso para que os componentes se separem por gravidade, seguida de lavagem com solução salina. É mais suave que a centrifugação e pode preservar melhor as células-tronco.
Filtragem
Sistemas de filtragem permitem separar a gordura por tamanho de partícula, retendo os adipócitos viáveis e deixando passar os componentes líquidos.
Na minha prática, utilizo uma combinação de decantação e lavagem que desenvolvemos ao longo dos anos e que tem nos dado resultados consistentemente bons.
Evolução Temporal do Resultado
Entender a linha do tempo do resultado é fundamental para que o paciente não se preocupe desnecessariamente nos primeiros meses:
- Semana 1: inchaço significativo — o rosto parece “cheio demais”. Isso é esperado
- Semanas 2-4: o edema começa a diminuir, mas o rosto ainda está inchado
- Meses 1-3: resolução progressiva do inchaço. A gordura que não sobreviveu começa a ser reabsorvida
- Meses 3-6: estabilização do resultado. O volume final começa a se definir
- Meses 6-12: resultado definitivo. A gordura remanescente está completamente integrada e vascularizada
É comum o paciente passar por uma fase de preocupação entre o segundo e o quarto mês, quando sente que o rosto “diminuiu demais”. Na maioria dos casos, o resultado final é excelente — apenas parecia mais volumoso no início devido ao edema.
Retoques: Quando São Necessários?
Em minha experiência, cerca de 15-20% dos pacientes podem beneficiar-se de uma segunda sessão de enxerto para otimizar o resultado. Isso geralmente acontece quando:
- A perda volumétrica inicial era muito severa
- A taxa de retenção ficou abaixo do esperado em alguma região
- O paciente deseja um resultado ainda mais volumoso
A segunda sessão, quando necessária, é geralmente menor e mais direcionada. Costuma ter taxa de retenção superior à primeira, possivelmente porque o leito receptor já está “preparado” pelo primeiro enxerto.
Minha Experiência Pessoal
Ao longo de anos realizando enxertos de gordura facial, minha taxa média de retenção tem se mantido consistentemente entre 60% e 75%, o que considero excelente e alinhado com os melhores resultados da literatura. Atribuo isso ao rigor técnico em cada etapa e à seleção criteriosa dos pacientes.
O fat grafting, quando bem executado, é um dos procedimentos mais gratificantes que realizo. A combinação de resultado natural, durabilidade e efeito regenerativo sobre a pele faz dele uma ferramenta insubstituível no arsenal do cirurgião plástico facial moderno.
Se você gostaria de entender como o enxerto de gordura pode beneficiar seu rosto, agende uma consulta. Terei prazer em avaliar suas necessidades e explicar detalhadamente como a técnica funciona e que resultados podemos esperar no seu caso.









