Uma Cirurgia Que Muda Vidas Desde a Infância
Poucos procedimentos na cirurgia plástica têm um impacto tão imediato e profundo na autoestima quanto a otoplastia em crianças. Em minha prática em Londrina, recebo frequentemente pais preocupados com o sofrimento emocional de seus filhos por causa das orelhas proeminentes — a popular “orelha de abano”. E posso afirmar: a decisão de operar no momento certo pode poupar a criança de anos de constrangimento e insegurança.
Mas quando é o momento certo? Essa é a pergunta que este artigo pretende responder de forma completa e honesta.
Entendendo a Orelha de Abano
A orelha proeminente é uma variação anatômica presente em aproximadamente 5% da população. Não é uma doença, não compromete a audição e não causa nenhum problema funcional. Porém, o impacto psicossocial pode ser significativo, especialmente em crianças em fase escolar.
Anatomicamente, a orelha de abano pode resultar de:
- Hipertrofia da concha: a parte central e mais profunda da orelha (concha) é excessivamente grande, projetando toda a orelha para fora
- Ausência ou insuficiência da anti-hélice: a dobra natural que deveria existir na parte superior da orelha não se formou adequadamente, deixando a orelha “aberta”
- Combinação de ambos: frequentemente, os dois componentes estão presentes em graus variáveis
A condição é congênita — ou seja, a criança já nasce com ela — e é determinada geneticamente. Não piora com o tempo, mas também não melhora espontaneamente após os primeiros meses de vida.
A Idade Ideal: Por Que 5 a 7 Anos?
A maioria dos cirurgiões plásticos — e eu me incluo nesse consenso — considera a faixa entre 5 e 7 anos como o momento ideal para a otoplastia infantil. Existem razões anatômicas e psicológicas para essa recomendação:
Razões Anatômicas
A cartilagem auricular atinge aproximadamente 85-90% do seu tamanho adulto por volta dos 5-6 anos de idade. Isso significa que a orelha já está grande o suficiente para ser operada com resultados estáveis e que não haverá crescimento significativo posterior que altere o resultado.
Além disso, a cartilagem infantil é mais maleável que a adulta, o que facilita a moldagem e a fixação com pontos — a cartilagem responde melhor às técnicas de sutura e tende a manter a nova forma com mais facilidade.
Razões Psicológicas
A entrada no ensino fundamental, por volta dos 6-7 anos, marca o início de uma fase de maior interação social e, infelizmente, de maior exposição a comentários e bullying. Operar antes dessa fase intensa de socialização permite que a criança inicie a vida escolar sem esse fator de insegurança.
Crianças operadas antes dos 7 anos frequentemente sequer lembram de terem tido orelhas proeminentes — o procedimento se integra naturalmente à sua história, sem trauma associado.
Não Muito Cedo
Operar antes dos 4 anos geralmente não é recomendado porque:
- A cartilagem pode estar pequena demais para a correção ideal
- A criança pode não colaborar adequadamente com os cuidados pós-operatórios
- A anestesia geral em crianças muito pequenas, embora segura, é preferível adiar quando possível
Não Muito Tarde
Embora a otoplastia possa ser realizada em qualquer idade — inclusive em adultos —, protelar o procedimento quando a criança já demonstra sofrimento emocional não é aconselhável. Cada ano de bullying e constrangimento deixa marcas que poderiam ter sido evitadas.
Como Sei Que Meu Filho Está Pronto?
Além da idade cronológica, considero alguns indicadores importantes:
- A própria criança verbaliza o incômodo: quando a criança espontaneamente reclama das orelhas, pede para usar cabelo comprido para cobri-las ou evita certas atividades, é um sinal claro de que o problema a afeta
- Maturidade para colaborar: a criança precisa entender minimamente que ficará com um curativo e que precisará de cuidados nos primeiros dias
- Relato de bullying: se há relatos de provocações por colegas, a intervenção é ainda mais justificada
- Desejo dos pais: quando a decisão é exclusivamente dos pais sem que a criança demonstre incômodo, costumo recomendar aguardar mais um pouco
A Cirurgia na Criança
Anestesia
Em crianças, a otoplastia é sempre realizada sob anestesia geral. A criança dorme confortavelmente durante todo o procedimento e acorda sem dor, graças ao bloqueio anestésico local que aplico durante a cirurgia.
A Técnica
A técnica que utilizo combina elementos das abordagens de Mustardé e Furnas, adaptados a cada caso. Basicamente, através de uma incisão atrás da orelha — em um local que permanece completamente escondido — acesso a cartilagem e realizo as correções necessárias:
- Pontos de sutura permanentes para criar ou acentuar a dobra da anti-hélice
- Redução da concha quando ela é excessivamente grande
- Fixação da concha mais próxima à mastoide para reduzir a projeção
Cada orelha é tratada individualmente, pois frequentemente apresentam graus diferentes de proeminência. O objetivo é simetria e naturalidade — orelhas que pareçam naturais, nem coladas demais à cabeça nem distantes demais.
Duração
O procedimento completo dura entre uma hora e uma hora e meia. É uma cirurgia ambulatorial — a criança vai para casa no mesmo dia.
O Pós-Operatório Infantil
A recuperação em crianças é geralmente mais rápida e mais fácil do que em adultos:
- Primeiras 24 horas: curativo tipo capacete é mantido. A criança pode sentir desconforto leve, controlado com analgésicos simples. Muitas crianças já estão brincando no dia seguinte
- Primeira semana: troca do curativo, uso de faixa elástica na cabeça. Restrição de atividades físicas intensas
- Duas a três semanas: uso noturno da faixa por mais 2-3 semanas para proteger as orelhas durante o sono
- Um mês: retorno a todas as atividades, incluindo esportes
A dor é surpreendentemente baixa na otoplastia. A maioria das crianças precisa de analgésicos apenas nos primeiros dois dias.
Resultados e Satisfação
A otoplastia infantil é uma das cirurgias plásticas com maior taxa de satisfação — tanto dos pais quanto das próprias crianças. O impacto na autoconfiança é quase imediato: crianças que evitavam prender o cabelo, que fugiam de fotos ou que se retraíam socialmente frequentemente se transformam após a cirurgia.
Os resultados são permanentes. A orelha corrigida manterá sua forma ao longo da vida, com as mudanças naturais do envelhecimento.
Riscos
Como toda cirurgia, a otoplastia tem riscos, embora sejam relativamente baixos:
- Assimetria residual: algum grau de assimetria é normal (nossas orelhas naturalmente não são perfeitamente simétricas), mas assimetrias significativas podem necessitar retoque
- Hematoma: raro, mas requer drenagem quando ocorre
- Infecção: rara, tratada com antibióticos
- Recidiva parcial: em alguns casos, a orelha pode projetar levemente com o tempo se os pontos perderem tensão
- Hipercorreção: orelha muito colada à cabeça — por isso a moderação no planejamento é essencial
Minha Filosofia na Otoplastia Infantil
Ao operar crianças, tenho uma responsabilidade redobrada. Minha abordagem é sempre conservadora — prefiro um resultado discretamente subdimensionado a uma hipercorreção que pareça artificial. Orelhas naturais têm alguma projeção; o objetivo não é colá-las à cabeça, mas sim posicioná-las dentro da faixa de normalidade.
Também dedico tempo especial à comunicação com a criança. Explico o procedimento de forma lúdica, adequada à sua idade, e busco que ela se sinta participante da decisão, não apenas submetida à vontade dos pais. Uma criança que entende e deseja a correção colabora melhor e tem uma experiência muito mais positiva.
Se seu filho sofre com orelhas proeminentes e você gostaria de saber se é o momento certo para a otoplastia, agende uma consulta. Terei prazer em avaliar a criança, explicar o procedimento de forma clara e ajudar vocês a tomar a melhor decisão para o bem-estar do seu filho.

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