Em resumo: dentista pode fazer blefaroplastia no Brasil?
Em 2 de novembro de 2026, a Resolução CFO 286/2026 incluía a blefaroplastia nas competências do dentista registrado como especialista em Cirurgia Estética Orofacial (CEOF), não de qualquer dentista. A norma é contestada no Senado e pode mudar. Seja qual for o desfecho, o que protege você é conferir quem opera, o título registrado, a estrutura e o plano para complicações.
- Situação: norma do CFO para especialistas em CEOF; projeto no Senado pede que seja sustada.
- Título: confira o registro no conselho da profissão, e não só certificados de cursos.
- Responsável: pergunte quem opera e quem atende uma complicação, inclusive à noite.
- Estrutura: anestesia, monitorização e recursos de emergência adequados à cirurgia.
- Riscos: retirar pele demais pode impedir o fechamento dos olhos e expor a córnea.
- Urgência: dor forte, piora da visão ou inchaço que aumenta exigem atendimento imediato.
O guia de blefaroplastia explica como avalio e opero as pálpebras. Neste artigo, respondo a uma pergunta que recebo com frequência: dentista pode fazer essa cirurgia? Por trás dela, quase sempre há outra: “como sei que meus olhos estarão em mãos preparadas?”. Essa segunda pergunta vale para qualquer profissional, e é nela que o artigo se concentra.
A pálpebra tem poucos milímetros de espessura, mas participa da proteção da visão. O tamanho da incisão não resume a responsabilidade da cirurgia. Em mais de 8.000 cirurgias em mais de 22 anos, aprendi a olhar para a região dos olhos considerando aparência e função juntas.
Situação das normas em 2 de novembro de 2026
A Resolução CFO 285/2026 mantém a vedação da blefaroplastia ao cirurgião-dentista, com exceção do especialista registrado em CEOF. A Resolução CFO 286, de 20 de março de 2026, inclui a blefaroplastia inferior e superior nas competências dessa especialidade, com exigências de formação, registro e ambiente [1]. O Conselho Regional de Odontologia de Rondônia esclarece que essas competências não se estendem automaticamente a outras especialidades odontológicas por semelhança entre as áreas [2].
O Projeto de Decreto Legislativo 177/2026, apresentado no Senado, pede que sejam sustadas as Resoluções CFO 283 a 286; na consulta desta data, aguardava despacho [3]. Um projeto em tramitação não equivale a uma suspensão aprovada. Esse cenário pode mudar: confira a situação atual nas páginas oficiais do CFO e do Congresso citadas nas referências antes de contratar o procedimento.
O que conferir antes de operar as pálpebras, com qualquer profissional
Formação e título registrado
Comece por informações verificáveis, não por fotos ou número de seguidores. Para um médico que se apresenta como cirurgião plástico, confira o CRM e o Registro de Qualificação de Especialista, o RQE, na busca por médicos do CFM. Para um dentista, confira o CRO e a especialidade registrada na consulta de inscritos do CFO. Certificado de curso não equivale a título de especialista registrado.
Quem opera e quem responde pelas complicações
Pergunte quem fará a cirurgia do início ao fim, qual é a experiência específica em pálpebras e quem atende você se algo acontecer à noite ou num fim de semana. Pergunte também para onde você será levado se precisar de um hospital ou de avaliação oftalmológica. Uma resposta clara antes da cirurgia vale mais que uma apresentação convincente.
Estrutura e anestesia
Verifique se o ambiente é adequado ao procedimento e à anestesia planejada, se há licenciamento, monitorização e material para emergências. A própria Resolução CFO 286 exige monitor e material para atendimento de emergência nos ambientes que descreve [1]. O nome “consultório” ou “hospital”, sozinho, não responde a essas questões. Opero as pálpebras em ambiente hospitalar, com anestesia geral venosa total (TIVA).
Uma avaliação que vai além da pele
Na avaliação, não olho só a pele que parece sobrar. Preciso entender a posição das sobrancelhas, o apoio da pálpebra inferior, o fechamento dos olhos e as queixas oculares. Uma pálpebra caída pode ser ptose palpebral, e não excesso de pele, e a ptose precisa ser reconhecida antes da cirurgia [7]. Também quero saber de cirurgias anteriores, olho seco, lentes de contato e acompanhamento oftalmológico.
O que pode acontecer e como deve ser atendido
A ASPS lista entre os riscos da cirurgia das pálpebras dificuldade para fechar os olhos, olho seco, ectrópio, sangramento, infecção, necessidade de revisão e alteração da visão, temporária ou até permanente [8]. Pergunte como cada uma dessas situações seria reconhecida e tratada no serviço que você está considerando.
Sangramento atrás do olho
Dor forte, piora da visão e inchaço que aumenta podem indicar sangramento atrás do olho e pedem atendimento imediato [6]. É uma emergência que exige descompressão rápida pela equipe; com tratamento rápido, a perda de visão pode ser revertida [4][7].
Dificuldade para fechar os olhos
Lagoftalmo é o fechamento incompleto das pálpebras. Pode acontecer depois de retirada excessiva de pele e piorar o ressecamento [4].
Pálpebra inferior fora de posição
O ectrópio é a virada da borda da pálpebra para fora, em geral na inferior, e deixa a superfície do olho mais exposta [5]. A retração é outra alteração: a pálpebra desce da posição habitual sem necessariamente virar.
Pálpebra caída depois da cirurgia
Uma ptose pode ficar evidente depois da blefaroplastia superior, por isso precisa ser avaliada antes e, quando presente, considerada no plano [7].
A exposição da córnea, a parte transparente à frente do olho, pode causar lesões e, em casos graves, úlcera [4][5]. Uma complicação, sozinha, não prova erro: vários fatores podem contribuir, mesmo com cuidados adequados. O que se espera de quem opera é preparo para prevenir o possível, reconhecer o problema e tratá-lo ou encaminhá-lo.
Uma boa consulta deixa espaço para dúvidas e para a possibilidade de não operar. Se a explicação se limita a “é só uma pele” ou promete ausência de riscos, falta uma parte importante da conversa. O artigo sobre como escolher um cirurgião plástico reúne outros critérios.
Perguntas frequentes
Qualquer dentista pode fazer blefaroplastia?
Não. Em 2 de novembro de 2026, a Resolução CFO 286/2026 previa a cirurgia para o especialista registrado em Cirurgia Estética Orofacial, com requisitos próprios. A norma é contestada no Senado e pode mudar.
Como confiro o registro de quem vai operar?
Para médicos, consulte o CRM e o RQE na busca por médicos do CFM. Para dentistas, consulte o CRO e a especialidade registrada na consulta de inscritos do CFO.
Toda complicação significa erro de quem operou?
Não. Complicações podem acontecer mesmo com cuidados adequados. O que importa é prevenir o possível, reconhecer o problema cedo e tratá-lo ou encaminhá-lo.
Já operei e não consigo fechar bem os olhos. O que faço?
Procure avaliação rápida. Se houver piora da visão, dor forte ou inchaço que aumenta, vá a um serviço de urgência imediatamente; uma dúvida sobre habilitação não deve atrasar o cuidado.
Vamos conversar sobre as suas pálpebras
Se quer discutir o seu caso, fale com a Isanna para marcar uma consulta comigo. Vou avaliar suas pálpebras, explicar o que pode ser tratado e quais riscos e limites existem, inclusive a possibilidade de não operar.
Referências
- Conselho Federal de Odontologia. Resolução CFO 285/2026 e Resolução CFO 286/2026.
- CRO-RO. CRO-RO Orienta: entenda as competências de CEOF, HOF e Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial.
- Congresso Nacional. Projeto de Decreto Legislativo n° 177, de 2026.
- Klapper SR, Patrinely JR. Management of Cosmetic Eyelid Surgery Complications. Semin Plast Surg. 2007.
- MedlinePlus. Ectropion.
- American Academy of Ophthalmology. Upper Eyelid Blepharoplasty.
- Yang P, Ko AC, Kikkawa DO, Korn BS. Upper Eyelid Blepharoplasty: Evaluation, Treatment, and Complication Minimization. Semin Plast Surg. 2017.
- American Society of Plastic Surgeons. Eyelid Surgery Risks and Safety.
